Treino dos Elevadores

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Os ascensores do Lavra (1884), Glória (1885) e Bica (1892) a par com o elevador de Santa Justa (1902), são os únicos sobreviventes da obra de Raoul Mesnier du Ponsard na capital. São monumentos de grande valor histórico para a cidade de Lisboa e para a engenharia nacional, que foram todos classificados como Monumentos Nacionais em Fevereiro de 2002.

Foram os meus companheiros nos Run 4 Fun, Paulo Curto de Sousa e Miguel Correia, que “descobriram” o tema e desenharam o percurso. Os Run 4 Fun têm feito este treino em grupo desde 2010, quando 11 atletas o inauguraram, sendo sempre o treino de “arranque” do ano.

Em 2018 os Treinos Temáticos assumiram a responsabilidade de organizar o mesmo e avançámos para um formato de treino aberto, tendo aparecido 75 pessoas para o mesmo.

A 7 de Janeiro tivémos uma manhã bem fria (5º / 6º) mas bonita. Como os elevadores começam a operar às 9h00 (ao domingo), iniciamos o nosso treino às 8h.

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Tratamos sempre de explicar o formato não competitivo destes treinos, os cuidados a ter durante o mesmo e começamos, a modo de aquecimento, a descer a Avenida da Liberdade.

 

Elevador da Glória

O sucesso do primeiro ascensor em Lisboa (Lavra) foi tal, que um ano depois, em 1885, se inaugura o Ascensor da Glória com toda a pompa e circunstância, que inclui até a presença do rei D. Luís.

Vulgarmente conhecido como Elevador da Glória – quem não consegue trautear a música lançada pelos Radio Macau em 1987 ?

Liga a Baixa (Praça dos Restauradores) ao Bairro Alto (jardim de São Pedro de Alcântara), percorrendo a Calçada da Glória por 276 metros num desnível de 45 metros e inclinação média de 18%

Gloria (aerea)

É hoje o mais movimentado dos 4 Monumento Nacionais aqui visitados, com mais de 3 milhões de passageiros anuais. Foi o primeiro elevador da cidade a proporcionar viagens no tejadilho, a chamada “imperial”, com acesso ao segundo piso feito por meio de uma escada em caracol situada na plataforma virada ao alto da calçada. De noite as viagens eram feitas à luz de velas colocadas no interior do ascensor.

Quando a Carris adquire (ou absorve) a NCAML em 1926, manda construir no terminal inferior da linha um abrigo para os carros e passageiros e onde funcionava a bilheteira. Foi sol de pouca dura, pois ao fim de sete anos a estrutura tem de ser dali retirada, devido às críticas de que era alvo (NOTA DO REDATOR: não descobri o motivo das reclamações)

 Bilheteiras do ascensor da Glória em 1933 foto de Eduardo Portugal arq. AML

De 1913 até 1926 organizou-se uma prova de ciclismo – Subida à Glória – que consistia na subida em contra-relógio de todo o trajecto, aberta a participantes profissionais e amadores. Alfredo Trindade estabeleceu o anterior record em 1926 : 50 segundos. Em 2013 reatou-se a prova e os records da subida são agora 40s, nos homens e 1m06 nas senhoras. https://desporto.sapo.pt/modalidades/ciclismo/artigos/reportagem-subida-a-gloria#vhs-CaNNdaIfDB7A1PPrGQU9

 

Iniciamos assim o primeiro desafio do dia 🙂

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No cimo fizemos uma paragem para reagrupamento e eis a primeira foto de grupo

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Elevador da Bica

O Ascensor da Bica liga a Rua de São Paulo ao Largo do Calhariz, operando desde 1892. Percorre 283 metros, com um desnível de 45 metros e inclinação média de 12%.

Bica (aerea)

Passou a trabalhar a vapor em 1896 e foi electrificado em 1927. Nesse mesmo ano sofreu um acidente – rebentou um cabo das carruagens e a mesma foi bater no edifício no fim do percurso – que acabou por provocar o encerramento do ascensor nos 9 anos seguintes.

 

Tudo o que sobe, desce. Depois da Glória tinhamos que ir até ao Cais do Sodré e à R. São Paulo para abordar a “rampa” seguinte. Na Bica temos um inicio com escadas e uma inclinação brutal. Isso tira o folego e torna a subida ainda mais desafiante 🙂

Desta vez o reagrupamento foi feito na Praço do Camões

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Elevador da Biblioteca (extinto)

 Aspeto do elevador de São Julião

O Elevador de São Julião ou do Município é inaugurado em 1897. Ligava o Largo da Biblioteca (hoje, da Academia de Belas-Artes) ao Largo de São Julião (hoje, Praça do Município), através de acessos embebidos em edifícios particulares (n.º 13 de Largo de S. Julião onde hoje temos o Restaurante Solar Pombalino, e terraço do Palácio do Visconde de Coruche).

Passava em ponte-passadiço sobre a Calçada de São Francisco, para sair no nº 13 do Largo da Biblioteca.

O serviço de transporte realizou-se até 1915 e a estrutura foi desmantelada em 1920.

 

Vamos de seguida atravessar a Baixa e dar uma vista de olhos nos “novos” elevadores de Lisboa (Sta Luzia e Castelo)

 

Raoul Mesnier du Ponsard

Gustave Eiffel…

É um nome universal, devido à torrezita de Paris. Este engenheiro francês viveu também em Portugal entre 1875 e 1877, deixando a sua assinatura em obras como o Mercado de Olhão e a Ponte D. Maria Pia (Porto), Ponte dupla (Viana do Castelo) e ainda outras pontes em Barcelos, Pinhão e Fão.

 

Já Raoul Mesnier de Ponsard…

Quem…?!?!? Outro franciú? Qué quinteressa?????

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O desconhecimento geral relativamente a este nome é mais uma ingratidão de Portugal, pois apesar do seu nome estrangeiro – era filho de imigrantes franceses radicados no Porto – Raoul nasce em São Nicolau em 1848 e estuda no Liceu do Porto. Matricula-se seguidamente na Universidade de Coimbra e aí concluiu os cursos de Matemática e de Filosofia, que frequentou paralelamente.

Parte então para o estrangeiro com vista a especializar-se em Engenharia Mecânica, tendo frequentado algumas das principais escolas-oficina da França, Alemanha e Suíça. Neste último país, teve oportunidade de estagiar nas oficinas da empresa construtora de elevadores de montanha do famoso engenheiro Nikolaus Riggenbach, experiência que havia de marcá-lo para toda a vida.

NOTA: Ao contrário do que se difunde, não existem registos de Raoul Ponsard haver sido discípulo ou mesmo de ter trabalhado com ou para Gustave Eiffel.

 

Na porta do Castelo estivemos a falar um pouco do mecanismo utilizado no inicio destes ascensores : sistema “Riggenbach-Mesnier”

Riggenbach-Mesnier

Inicialmente o sistema de locomoção dos carros fazia-se utilizando cremalheiras laterais e cabo por contrapeso de água, designado por “systema Riggenbach-Mesnier” (inventado por Niklaus Riggenbach e difundido a partir da Suíça).

O sistema funciona com dois carros que sobem e descem alternada e simultaneamente ao longo de duas vias paralelas de carris com uma fenda central que alberga o cabo subterrâneo encastrado na calçada e que os une.

Riggenbach-Mesnier

(esq) Abastecimento de água no topo; (centro) sistema cremalheira, ainda em uso no Bom Jesus Braga; (dir) “imperial” no tejadilho

Como força motriz do cabo que ligava os dois carros era utilizado um processo mecânico de contrapesos de água (um reservatório com água no tejadilho). Estes depósitos eram esvaziados quando chegavam ao ponto mais baixo e enchidos no ponto mais alto, de modo a que a diferença de peso fizesse funcionar o sistema.

As frequentes faltas no abastecimento de água em Lisboa levaram a alterações do sistema de tracção, que passou a ser feito através de uma máquina a vapor e mais tarde com o recurso a energia eléctrica.

 

Depois do Castelo é chegada a altura de nova descida desta vez rumo ao Elevador do Carmo, através do Beco de S. Cristovão

 

Elevador do Carmo / Sta Justa

O Elevador do Carmo, ou de Santa Justa como é conhecido, inaugura-se em 1902. Era movido a vapor e foi projectado por Raoul Mesnier du Ponsard, e não por Gustave Eiffel como habitualmente é referido

Tem uma estrutura composta por ferro fundido em estilo neogótico e Ponsard e o arquitecto francês Louis Reynaud aplicaram na sua construção algumas das técnicas e materiais já utilizados em França.

Aspeto do elevador de Sta Justa na atualidade

Vista sobre a Rua do Ouro

Foi, no início, propriedade de uma empresa especialmente constituída tendo como objectivo a sua construção e exploração: a Empresa do Elevador do Carmo, acabou por ser electrificado em 1907 e pertence actualmente à Companhia Carris

 

 

A visita ao elevador não estaria completa sem passarmos pela parte superior, no Largo do Carmo. Logo mais uma rampa 🙂

E depois é o momento para outro ponto emblemático deste treino… a Ginginha !!!

 

Estamos quase no fim, mas ainda faltam 2 subidas…

1. o Lavra…

 

Elevador do Lavra

Dos vários ascensores surgidos em Lisboa nos finais do século XIX, o primeiro a ser construído, em 1884, foi o que circula na Calçada do Lavra estabelecendo ligação entre o Largo da Anunciada e o Campo Santana (junto ao jardim do Torel).

Lavra (aerea)

Com um desnível de 43 metros em apenas 188 metros de percurso, apresenta uma inclinação média de 23% (!).

 

2. … e retorno pela Av. Liberdade

 

 

O arranque em Portugal

O primeiro funicular a funcionar em Portugal (e na Península Ibérica) foi o Elevador do Bom Jesus em Braga, inaugurado em 1882.

O projecto foi do engenheiro suíço Nikolaus Riggenbach, que a partir do seu país natal enviava todas as indicações necessárias para a construção do Elevador e contou em Portugal com a colaboração técnica e prática do engenheiro português de ascendência francesa Raoul Mesnier du Ponsard, que em Braga dirigiu a execução do projecto.

Raoul Mesnier aplicou o sistema desenvolvido por Riggenbach – que esteve em Braga, em 1882, para assistir à inauguração – na construção de ascensores e locomotivas de montanha, com pleno sucesso, uma vez que o elevador ainda hoje se encontra em pleno funcionamento, nunca tendo sofrido algum acidente.

O ascensor do Bom Jesus de Braga é assim o mais antigo, em serviço, no mundo a utilizar o sistema de contrapeso de água.

O estrondoso sucesso desta obra, irá granjear a Raoul Mesnier du Ponsard a correspondente reputação, à época. Raoul fez então a seguinte proposta à Câmara Municipal de Lisboa:

“na qualidade de representante e fundador d’uma companhia para o estabelecimento por tracção mechanica da locomoção, (…) authorização ďpara o estabelecimento dos seus processos em algumas calçadas onde a rodagem de carros ordinarios se torna extremamente penosa.
Possuidora dos meios technicos mais infalliveis para o fim a que se destina, a companhia dará todas as condições de garantia e segurança que possam ser exigidas. Desde já a companhia pede authorização e licença para começar os seus trabalhos na Calçada da Glória e outro sim que esta authorização seja extensiva às rampas abaixo indicadas:
Da Rua de S. Bento à Praça do Príncipe Real; Calçada do Lavra à Rua do Thorel e Campo de Sant’Anna; Calçada de Agostinho de Carvalho à Graça; Rua dos Cavalleiros à Graça-Calçada de Stª Apollonia à Cruz dos Quatro Caminhos; Largo de Santos à Rua de S. João da Matta; Calçada da Estrela ao Largo da Estrela”

Logo em 1882, Raoul Mesnier du Ponsard assina com a Câmara Municipal de Lisboa um contracto de concessão autorizando a estabelecer e explorar planos inclinados no interior da cidade para o transporte de passageiros e mercadorias.

No mesmo dia em que assinava o contracto para a construção dos funiculares do “systema Riggenbach-Mesnier”, Raul Mesnier fundava uma empresa para o financiamento e exploração da obra, a Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, para a qual transferia todos os seus direitos.

A primeira geração de Elevadores e Ascensores vão ser assim construídos entre 1884 (Lavra) e 1902 (Santa Justa) pela N.C.A.M.L., chegou a ter seis ascensores e três elevadores em simultâneo no activo.

A empresa subsistiu até 1926, data quando foi adquirida pela CCFL (Companhia Carris de Ferro de Lisboa)

Destas obras foram extintos dois Elevadores (Chiado ou Rua do Crucifixo e Biblioteca) e três Ascensores. Estes ascensores extintos tinham vários pontos comuns: foram todos projectados por Raoul Mesnier de Ponsard; utilizavam o sistema de “cable-car”; cobriam distâncias longas e, os seus percursos, foram em parte reutilizados pelos carros eléctricos da Carris (Estrela, Graça, S. Sebastião)

 

Para o fim tinhamos à nossa espera água e as já tradicionais laranjas 🙂

E a foto de grupo…

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O próximo Treino Temático está programado para domingo, 15 de Abril. O tema ainda está no segredo dos deuses.

Por fim agradecer aos “fotografos de serviço” de quem reutilizei todas as imagens aqui presentes: Dias Fernando, Fernando Rosete, Nuno Baixinho, Paulo Curto de Sousa, Pedro Machado e Ruben Costa.

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