LIVRO: “World War Z”

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“Acabei de acabar” este livro e ADOREI 646BCA64-3CC1-468A-81B6-CEE41D5BAF4C

Ao contrário do que o título pode indicar, ou até da forma como as livrarias e livreiros o estão a classificar, este não é nada um livro de terror ou de zombies e sim um livro de análise social.

O escritor Max Brooks (filho do realizador Mel Brooks) recorre à literatura do fantástico para nos apresentar um painel das reações humanas diante de crises e tragédias inesperadas.

PREMISSA:

A premissa é uma das mais interessantes que vi nos últimos tempos: “O que aconteceria ao mundo se uma praga zombie se espalhasse?”

Só que aqui os zombies, poderiam ter sido trocados por uma chuva de meteoros, uma invasão de extraterrestres ou um vírus mortal, como o ebola ou a gripe das aves.

Segundo a editora portuguesa, Guerra Mundial Z pode ser visto «como uma crítica aos governos, às grandes potências e mesmo ao próprio homem e às suas atitudes, por vezes irracionais», já que «muito do que está no romance é um reflexo bem real da nossa história».

ESTRUTURA DO LIVRO:

A estrutura do livro é outra interessante surpresa, num estilo de documentário que raramente encontramos em livros de ficção.

Começamos por saber que a guerra contra os zombies acabou há dez anos, e nós vencemos. Portanto conta-se, em perspetiva, tudo o que aconteceu antes, durante e após o conflito. Mas, como o subtítulo em inglês diz, é uma história oral, contada pelas pessoas que viveram o conflito.

O narrador integrou uma comissão da UN e conduziu entrevistas por todo o mundo para elaborar um relatório sobre o conflito, e isto dá um aspeto de “documento oficial” ao livro. Cada relato destes “sobreviventes” é uma peça dum puzzle que vai revelando o cenário de horror que a humanidade viveu durante a crise.

PERSONAGENS:

A única personagem comum a todas as histórias é o narrador/entrevistador que logo no inicio indica que prefere interferir o mínimo possível nos relatos apresentados. Daí que o livro não tem um protagonista, a não ser o próprio conflito em si.

A diversidade de entrevistados mostra bem a pesquisa que o escritor terá feito para abordar tantos detalhes culturais de diversas partes do mundo. Do Dr. Kwang Jing-shu, o médico chinês que examinou o “paciente zero”, contaminado nas ruínas de Dachang, na China, a Mary Jo Miller, a arquiteta de um bairro onde a elite pode pagar por construções protegidas. De Breckenridge Scott, o empresário farmacêutico que fez fortuna com uma falsa vacina para a infestação e fugiu para a Antártida, a Todd Wainio, soldado da infantaria do exército americano que lutou na celebrada Batalha de Yonkers, nada escapa á pena do autor relatando tudo de uma forma credível, sem em nenhum momento cair no gore ou no trash.

RELATOS:

Num tom investigativo, mesclando os acontecimentos eletrizantes à emoção dos depoimentos, Max Brooks constrói um livro contagiante e surpreendente, com rara meticulosidade e uma grande capacidade imaginativa, tecendo comentários sobre temas como: o autoritarismo na China e na União Soviética; a falsificação de relatórios de inteligência por parte do governo dos Estados Unidos para se justificar; o impacto social e ambiental de grandes empreendimentos como a represa de Three Gorges, na China; a opressão imposta por regimes fundamentalistas, como o talibã no Afeganistão e o tráfico internacional de órgãos, envolvendo países como o Brasil.

O livro conta em detalhes as primeiras infeções, as ações dos governos quanto a isso, e como a infestação se tornou mundial. Fosse por refugiados infestados, ou mesmo o transplante de órgãos com o vírus, ninguém percebeu de onde o perigo vinha. Aliás, quando o perigo foi percebido, ele foi sumariamente ignorado pelas altas cúpulas do poder e somente quando os zombies estavam dentro das suas casas (literalmente) é que ações começaram a ser tomadas.

A maneira como Max Brooks descreve esse lado de bastidores expõe os meandros da politica, a burocracia, a burrice dos governantes e dá o seu quê de real ao livro.

Uma ótima leitura que pode ser tomada como ficção científica, mas que no final nos faz pensar no quanto os factos relatados nessa ficção podem um dia se tornar reais. O pior predador do mundo é o homem, que realiza actos extremos de heroísmo e altruísmo, mas também de egoísmo e mesquinhez.

A meio do livro, esqueci-me totalmente que este era um livro sobre zombies! De alguma maneira, tudo aquilo parece possível de acontecer. Mais assombroso do que o terror dos zombies é a crítica que Brooks faz às nossas mentalidades e aos nossos comportamentos. Muito bom.

FILME:

Depois duma longa disputa em 2007,  para assegurar os direitos do livro, entre as produtoras detidas por Brad Pitt e Leonardo DiCaprio, estreia em breve em Portugal a adaptação para o cinema.

Olhando para a sinopse do filme, os trailers disponíveis e a lista de personagens do mesmo (maioritariamente americanos), parece-me que teremos uma adaptação “muito livre” do livro em que as semelhanças entre os dois são pequenas. Isso mesmo indicou o escritor  Max Brooks, que disse numa entrevista que “parece que do livro Guerra Mundial Z, apenas sobrou o nome”.

O filme acompanha Gerry Lane (Bradd Pitt), um funcionário da ONU que percorre o mundo numa corrida contra o tempo para parar uma pandemia que está derrubando os exércitos e governos, ameaçando dizimar a própria humanidade.

Acredito que pode ser um filme de acção muito interessante, mas que dificilmente, fará jus ao livro. Admitamos que tratando-se dum livro sem protagonista, contando dezenas de histórias paralelas, seria sempre complicado trazê-lo fielmente às telas e, ainda assim, fazer um produto interessante para o público em geral.

Assim, não se fiquem apenas pelo filme para julgar este o livro.

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