CINEMA: Django Libertado

2012-10-19 20.45.29

É difícil ficar indiferente a Tarantino e, normalmente, existem 2 tipos de reacção: adorar e detestar. Eu estou no primeiro grupo Smile

Depois de Cães Danados, Pulp Fiction, Jackie Brown, (o pack) Kill Bill e Sacanas sem Lei, chega-nos agora este “Django”.

Os meus favoritos, por motivos bem diversos, são Pulp Fiction (pelos diálogos absorventes e inovação na montagem), Kill Bill (pela estilização da violência, numa bela homenagem aos filmes de artes marciais) e Sacanas sem Lei (pelo humor – e personagens – retorcidos).

Django não é dos melhores filmes dele, e ainda assim é um bom filme. Temos tudo o que já faz parte do “estilo Tarantino”: diálogos improváveis, humor desconcertante, esguichos de sangue exagerados e banda sonora muito forte (é quase um personagem mais).

A excessiva violência gráfica, muitas vezes mal compreendida, continua a gerar situações desconcertantes (é normal ouvir gargalhadas em algumas das cenas mais violentas do filme).

Os filmes de Tarantino visam sempre ser uma mistura de entretenimento com homenagens ao cinema, e todas as peliculas estão cheias destas referências. Desde as pequenas participações de actores ou figuras pop, os nomes de personagens, algumas situações caricatas, etc. Muitas delas até nos escapam por não conhecer bem os actores secundários que vão aparecendo.

Fiquei com uma questão para o futuro: Tarantino oferece a cada filme aquilo que os seus fãs gostam e querem ver, mas isso gera alguma previsibilidade nas imprevisibilidades do realizador. Durante o filme, quase que já esperamos o tipo de desenvolvimento que o filme terá… Como se re-inventará ele no futuro?

 

O FILME:

Oeste selvagem, EUA. 1858, dois anos antes a guerra civil. Acompanhamos a história do escravo Django (Jamie Foxx), que depois de libertado pelo caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz (Christoph Waltz), passa a ajudá-lo na captura de assaltantes ou criminosos.
Por conta disso, o Dr. Schultz promete ajudá-lo a libertar sua esposa Broomhilda (Kerry Washington), que foi vendida como escrava para o sádico fazendeiro Calvin Candie (Leonardo DiCaprio).

2013-03-10 21.12.03

Numa paisagem imediatamente reconhecível como do “Oeste dos cowboys”, vemos um episódio triste dos EUA no séc. XIX: uma fila de escravos acorrentados uns aos outros é levada a pé por dois cowboys a cavalo. Sem diálogos, sem perseguições, sem movimentos rápidos da camera ou mudanças bruscas no zoom.

Só temos que interpretar o que se está a passar ali, naquele momento. Compreender a gravidade da situação. O que se segue será apenas consequência daquilo que está na frente dos nossos olhos.

A acompanhar estas imagens iniciais apenas a música do western anterior chamado “Django”.

Isto é o que se ouve nesse troço inicial…

O nome do filme é apenas uma homenagem ao filme de Sergio Corbucci (de 1966), não sendo um remake, nem estando as histórias relacionadas. Tarantino ainda nos “serve” um pequeno cameo do Django original, o actor Franco Nero, mais adiante no filme:

2012-12-13 07.04.00Amerigo Vessepi: What’s your name?
Django: Django…
Amerigo Vessepi: Can you spell it?
Django: D, J, A, N, G, O. The D is silent.
Amerigo Vessepi: I know.

 

Em termos de argumento, este é o mais convencional do realizador. A história é perfeitamente linear e simples, sem flashbacks e/ou montagem fragmentada. Os próprios diálogos não se destacam, prolongam ou surpreendem tanto como em situações anteriores.

É antes de mais uma história de amor que depois ao longo do filme caminha a passos largos para um final apoteótico de morte, sangue e vingança.

Bem… na verdade dois finais… Tarantino serve-nos um primeiro clímax (após a brilhante cena do jantar), mas depois não resiste a continuar a pelicula a caminho de algo mais “vistoso” visualmente. E aqui poderá estar um dos pontos fracos do filme, menos 15 ou 20 minutos não lhe tiravam valor e evitava-se a parte final em que se perde um pouco o ritmo anterior.

 

OS ACTORES:

11432_Form_5_SAM_r2

Inacreditável a ausência de Samuel L. Jackson nas nomeações dos diversos prémios cinematográficos deste ano !!!

Deverá ser um dos seus papéis mais emblemáticos (e caricatos), como o velho escravo Stephen, tão ou mais racista que o seu dono. Um lambe-botas de proporções épicas, numa relação com seu mestre entre a submissão absoluta e um carinho quase que de pai para filho – escravo, mordomo, confidente, conselheiro, … Toma conta de todas as cenas em que entra e cria um personagem divertido e ao mesmo tempo execrável.

Tarantino chamou-lhe o “preto mais desprezível” da história do cinema. E deve ser.

2013-03-10 21.09.01

Christoph Waltz volta a maravilhar depois do nazi vira-casacas Hans Landa de Sacanas sem Lei. A voz, a dicção, a postura e os trejeitos criam um Dr. King Schultz articulado, simpático, engraçado, cínico e letal.

O Oscar de Melhor Actor Secundário ficou bem entregue.

Para mim, apenas a nota de ambos (Schultz e Landa) se parecerem muitíssimo em vários aspectos – mesmo sendo tão distintos como personagens. Algo que “tira” um pouco ao bom trabalho do actor.

2013-03-10 13.16.52

De Leonardo DiCaprio costumo disser que não o acho um actor por aí além, mas todos os filmes em que entra são bons… Smile

Aqui é o herdeiro duma plantação de algodão, arrogante e odiento: Monsier Calvin Candie – com dentes podres, rodeado de empregados e escravos bajuladores e com uma relação muito estranha com a irmã víuva (Lara Lee Candie-Fitzwilly)

Talvez pelo tom exagerado da interpretação (overacting ou indicações do realizador?) não a achei fantástica. Percebe-se a intenção de mostrar alguém fútil, insensivel, blazé, violento, ameaçador e ganancioso, mas pareceu-me ter uma permanente componente “desenho animado” a desvalorizar o trabalho de “mau muito mau”.

Jamie_Foxx_means_business_in_new_Django_Unchained_trailer

O mocinho do filme… começa logo no guarda-roupa – óculos escuros e roupinha estilosa de cowboy imbatível – e temos um personagem politicamente correcta ao exagero.

Não sendo um mau trabalho do actor, o personagem é unidimensional demais e parece que só está ali para mostrar-se, fazer algumas poses fantásticas para os cartazes e ser o móbil da acção.

2013-03-10 13.16.05

Não sendo uma personagem principal e apenas uma aparição (cameo), não podia deixar de referir Big Daddy Smile

Vindo directamente de Miami Vice, surge um personagem hilariante e que acaba por participar numa das cenas que ficará para a história do cinema: os K.K.K. e os buracos no lençol !!!

Quase que dá para ouvir as gargalhadas de Tarantino e sua equipe no set durante as filmagens desta cena a fazer lembrar o melhor dos Monty Python.

Nota-se também um senso de humor muito do estilo “Bugs Bunny”, com explosões e mutilações mais que exageradas, além de “piadas” visuais deliciosas, como o gigantesco dente a balançar na carruagem do Dr. Schultz ou o treino de tiro ao alvo num boneco de neve.

 

AS REFERÊNCIAS “DENTRO DO FILME”:

Este filme é também um conto de fadas Smile

O nome da esposa de Django é Broomhilda (e aqui nem nos vamos deter no pormaior de ter uma escrava negra nos EUA do séc.XIX chamada Broomhilva Von Schaft), numa homenagem à valquíria da mitologia nórdica do século 13 que é resgatada do fogo por seu amado Siegfried.

Se nos lembrarmos que Siegfried foi adoptado pelos nazis como o ideal ariano a partir do qual construiram a sua repugnante visão de mundo, Tarantino mostra aqui mais um perfeito exemplo da sua capacidade de surpreender os espectadores. 

Ao fazer com que seja um alemão a transformar o negro Django em Siegfried: numa cena de antologia em que conta a história de Broomhilda/Siegfried enquanto as suas mão fazem um jogo de sombras/marionetas na parede de pedra por trás deles: vai dinamitar a distorção do mito feita pelos nazis, transformando este filme no mais simbólico e metafórico da sua carreira.

Ele estabelece uma ligação com o seu trabalho anterior, transporta essa ideia para discutir a questão da escravidão e, numa tacada única, ainda “limpa a barra” dos alemães (que tinham ficado muito mal na fotografia nos Sacanas sem Lei).

Fica a curiosidade pela abordagem seguinte, enquanto esperamos pelo próximo filme. Tarantino já adiantou ser a terceira parte duma trilogia que pensou juntamente com estes dois.

Em Dezembro de 2012, o realizador negro Spike Lee declarou a um jornalista: “Eu não vou falar sobre o filme, porque eu não o verei. Tudo o que posso dizer é que assistir ao filme seria desrespeitoso aos meus ancestrais”. Depois, escreveu no seu Twitter, “A escravidão nos Estados Unidos não é um western spaghetti de Sergio Leone. Foi um holocausto. Meus ancestrais foram escravos, roubados da África. Eu os honrarei”.
Spike Lee, sem sombra de dúvidas, é um completo imbecil…

 

Como sub-texto do argumento, deixo ainda mais 2 situações:

  1. A repulsa do europeu civilizado face à selvageria americana em pleno século XIX é outra observação subtil do filme que ganha uma força tremenda nas expressões de Waltz perante os vários interlocutores.
  2. Stephen, um negro que se acha superior aos outros negros, personagem tão real quanto incómodo, e que pode ser espelho de muitos comportamentos actuais.

 

A “deixa” que me ficou na memória:

“-I’ve counted six bullets…
– Well, I’ve counted two guns!”

 

Django Libertado pode não ser o melhor trabalho de Tarantino. Mas é um filme óptimo e muito acima da média do que se vê aparecer nas telas a cada semana.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s