Leituras: “Novembro” (Jaime Nogueira Pinto)

Abro aqui um novo capitulo no meu blogue, apresentando a minha visão de livros que vou lendo. Agradeço comentários, ideias e recomendações para novas leituras…

 

“No verão de 1973, a história está a preparar-se para tomar conta das estórias destes homens e das mulheres que amam levando-os por Lisboa, Madrid e Luanda na torrente da conspiração, da revolução e da contra-revolução, até ao inverno de 1975.”

Atraiu-me a possibilidade de olhar para um período fundamental da nossa história recente, mas agora com os olhos “do outro lado” e não da versão oficial.

Acompanhamos a história de Henrique, banqueiro viúvo tornado guerrilheiro activista (MDLP), do seu filho Eduardo – jovem, destemido, sonhador, romântico, determinado – e de Alexandre, seu colega na universidade – classe média, intelectual, tímido, estratega. Todos eles frustrados com o “fim do Império”, com o rumo da História, com o que poderá acontecer a Portugal e como se enquadrará no mundo ao “encolher” para o rectângulo.

O que faz correr Eduardo Pinto de Vasconcellos para a sede semi-clandestina de uma organização nacionalista nas vésperas de exames decisivos? E que sombras carrega o pai, Henrique, ex-voluntário na Guerra de Espanha e banqueiro internacional? O que move Alexandre, intelectual, romântico, tímido e revolucionário?

Vamos do Verão de 1973, “através” do 25 de Abril, do 28 de Setembro, da “Matança da Páscoa” (uma cilada?), do 11 de Março, as nacionalizações, as eleições para a Assembleia Constituinte (25 Abril 1975), o Verão Quente, a reforma agrária até ao Novembro do título.

O romance, porque é disso que se trata e não dum livro de História, procura mostrar o que foram estes acontecimentos aos olhos de pessoas “normais”, no caso pessoas com ideias políticas e principios mais conservadores e de direita (e não apenas os “ricos”). Quais os seus receios, o que pensaram, o que fizeram, onde estiveram, como foram afectadas por estes eventos. Também como lidaram com as prisões, a perda de empresas, de terras, o exílio ou, pelo menos, a fuga para outros destinos.

Achei interessante este olhar diferente, mostrando que guerras e revoluções têm preço para todos os lados e que nem tudo é a preto e branco e com os “bandidos e mocinhos” perfeitamente identificados.

Nota-se no livro uma visão cor-de-rosa (ou pelos ideias politicos, será azul?) destas pessoas, maioritariamente muito cultas, muito progressivas, inteligentes, que “viram todos os filmes” e “leram todos os livros”, que debatem os temas em voga na época de forma sofisticada, etc…

Acima de tudo gostei das histórias de amor, tão distintas, vividas pelos nossos personagens ao longo do livro. Da sua relação com Isabelinha, Vera, Diana e Inha. Da paixão, do desejo, do luto, da incerteza, da separação, das diferenças de classe, … De como o autor soube fazer-nos viver os diversos sentimentos entre estas pessoas.

Penso existir fortes pontos, senão auto-biográficos, pelo menos biográficos da vida de Nogueira Pinto. Do que leio em revista, entrevistas, etc. nota-se bem a sua vivência do amor – a, sempre referida, Zezinha. Acho também que é fácil imaginar que os 3 personagens têm aspectos da sua personalidade e história de vida (alter-egos?)

O título é óbvio…

O mês de Novembro que foi fértil em acontecimentos. Começando, a 6, com o histórico debate de mais de 3,5 horas entre Soares e Cunhal em que à acusação de Soares de que o PCP queria instaurar uma ditadura comunista à imagem dos países do Leste, Cunhal lhe respondeu a famosa tirada: “Olhe que não, olhe que não”. A manifestação a 12 do sindicato da construção civil que cercou os deputados no Parlamento, não os deixando sair por 2 dias. O levantamento a 24 de pequenos proprietários agrícolas ultra-conservadores que cortaram a A1 em Rio Maior separando o país em 2 e à beira da guerra civil. Até à tentativa (falhada) de golpe de estado pelos sectores da esquerda mais radical das Forças Armadas efectuada em 25 de Novembro.

Em Novembro tudo acaba: O Império, a Revolução e os sonhos dos que, dos dois lados, não ficaram no meio e deram tudo por tudo.

A história manteve-me cativado até ao fim, permite ter vários interesses ao longo da mesma, abordando temas e vivências diversas e foi um prazer esta leitura.

RECOMENDO.

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